"Homens da Galiléia, porque ficais aí a olhar para o céu? Esse Jesus que vos acaba de ser arrebatado para o céu voltará do mesmo modo que o vistes subir para o céu. (At 1,11) "

A PAIXÃO DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO SEGUNDO JOÃO

 

Comentada por Cornélio a Lapide

 

Sinopse do Capítulo XIX do Evangelho de S. João

 

 

1. A flagelação do Cristo, e a coroação de espinhos; 12. Pilatos o entrega aos Judeus, que o crucificam; 25. Ele confia sua Mãe aos cuidados de São João; 28. As palavras na Cruz, e a morte; 34. A lança lhe trespassa o costado; 38. José de Arimateia e Nicodemo sepultam-no.

  
1. Pilatos mandou então flagelar Jesus.

2. Os soldados teceram de espinhos uma coroa e puseram-lha sobre a cabeça e cobriram-no com um manto de púrpura.

3. Aproximavam-se dele e diziam: Salve, rei dos judeus! E davam-lhe bofetadas.

4. Pilatos saiu outra vez e disse-lhes: Eis que vo-lo trago fora, para que saibais que não acho nele nenhum motivo de acusação.

5. Apareceu então Jesus, trazendo a coroa de espinhos e o manto de púrpura. Pilatos disse: Eis o homem!

6. Quando os pontífices e os guardas o viram, gritaram: Crucifica-o! Crucifica-o! Falou-lhes Pilatos: Tomai-o vós e crucificai-o, pois eu não acho nele culpa alguma.

7. Responderam-lhe os judeus: Nós temos uma lei, e segundo essa lei ele deve morrer, porque se declarou Filho de Deus.

8. Estas palavras impressionaram Pilatos.

9. Entrou novamente no pretório e perguntou a Jesus: De onde és tu? Mas Jesus não lhe respondeu.

10. Pilatos então lhe disse: Tu não me respondes? Não sabes que tenho poder para te soltar e para te crucificar?

11. Respondeu Jesus: Não terias poder algum sobre mim, se de cima não te fora dado. Por isso, quem me entregou a ti tem pecado maior.

12. Desde então Pilatos procurava soltá-lo. Mas os judeus gritavam: Se o soltares, não és amigo do imperador, porque todo o que se faz rei se declara contra o imperador.

13. Ouvindo estas palavras, Pilatos trouxe Jesus para fora e sentou-se no tribunal, no lugar chamado Lajeado, em hebraico Gábata.

14. (Era a Preparação para a Páscoa, cerca da hora sexta.) Pilatos disse aos judeus: Eis o vosso rei!

15. Mas eles clamavam: Fora com ele! Fora com ele! Crucifica-o! Pilatos perguntou-lhes: Hei de crucificar o vosso rei? Os sumos sacerdotes responderam: Não temos outro rei senão César!

16. Entregou-o então a eles para que fosse crucificado.

17. Levaram então consigo Jesus. Ele próprio carregava a sua cruz para fora da cidade, em direção ao lugar chamado Calvário, em hebraico Gólgota.

18. Ali o crucificaram, e com ele outros dois, um de cada lado, e Jesus no meio.

19. Pilatos redigiu também uma inscrição e a fixou por cima da cruz. Nela estava escrito: Jesus de Nazaré, rei dos judeus.

20. Muitos dos judeus leram essa inscrição, porque Jesus foi crucificado perto da cidade e a inscrição era redigida em hebraico, em latim e em grego.

21. Os sumos sacerdotes dos judeus disseram a Pilatos: Não escrevas: Rei dos judeus, mas sim: Este homem disse ser o rei dos judeus.

22. Respondeu Pilatos: O que escrevi, escrevi.

23. Depois de os soldados crucificarem Jesus, tomaram as suas vestes e fizeram delas quatro partes, uma para cada soldado. A túnica, porém, toda tecida de alto a baixo, não tinha costura.

24. Disseram, pois, uns aos outros: Não a rasguemos, mas deitemos sorte sobre ela, para ver de quem será. Assim se cumpria a Escritura: Repartiram entre si as minhas vestes e deitaram sorte sobre a minha túnica (Sl 21,19). Isso fizeram os soldados.

25. Junto à cruz de Jesus estavam de pé sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena.

26. Quando Jesus viu sua mãe e perto dela o discípulo que amava, disse à sua mãe: Mulher, eis aí teu filho.

27. Depois disse ao discípulo: Eis aí tua mãe. E dessa hora em diante o discípulo a levou para a sua casa.

28. Em seguida, sabendo Jesus que tudo estava consumado, para se cumprir plenamente a Escritura, disse: Tenho sede.

29. Havia ali um vaso cheio de vinagre. Os soldados encheram de vinagre uma esponja e, fixando-a numa vara de hissopo, chegaram-lhe à boca.

30. Havendo Jesus tomado do vinagre, disse: Tudo está consumado. Inclinou a cabeça e rendeu o espírito.

31. Os judeus temeram que os corpos ficassem na cruz durante o sábado, porque já era a Preparação e esse sábado era particularmente solene. Rogaram a Pilatos que se lhes quebrassem as pernas e fossem retirados.

32. Vieram os soldados e quebraram as pernas do primeiro e do outro, que com ele foram crucificados.

33. Chegando, porém, a Jesus, como o vissem já morto, não lhe quebraram as pernas,

34. mas um dos soldados abriu-lhe o lado com uma lança e, imediatamente, saiu sangue e água.

35. O que foi testemunha desse fato o atesta (e o seu testemunho é digno de fé, e ele sabe que diz a verdade), a fim de que vós creiais.

36. Assim se cumpriu a Escritura: Nenhum dos seus ossos será quebrado (Ex 12,46).

37. E diz em outra parte a Escritura: Olharão para aquele que transpassaram (Zc 12,10).

38. Depois disso, José de Arimatéia, que era discípulo de Jesus, mas ocultamente, por medo dos judeus, rogou a Pilatos a autorização para tirar o corpo de Jesus. Pilatos permitiu. Foi, pois, e tirou o corpo de Jesus.

39. Acompanhou-o Nicodemos (aquele que anteriormente fora de noite ter com Jesus), levando umas cem libras de uma mistura de mirra e aloés.

40. Tomaram o corpo de Jesus e envolveram-no em panos com os aromas, como os judeus costumam sepultar.

41. No lugar em que ele foi crucificado havia um jardim, e no jardim um sepulcro novo, em que ninguém ainda fora depositado.

42. Foi ali que depositaram Jesus por causa da Preparação dos judeus e da proximidade do túmulo.

 
Comentários

Ver. 1.—Pilatos mandou então flagelar Jesus. Assim se deu, após ele haver dito (Lc XXIII, 22) “Irei castigá-lo e depois o soltarei.” Diz a tradição que primeiro flagelaram ao Cristo com grosso cordame, depois com cordame de nós e açoute aguilhoado, e então com correntes, para finalmente ser coroado de espinhos. Todavia, afirma Ribera que de tais tradições não nos devemos fiar muito, pois que os povos da região foram vítimas de frequentes invasões, e a tradição não se conservara íntegra.

Ver. 2.— Cobriram-no com um manto de púrpura. Pseudo-Atanásio (de Cruce) afirma que Cristo aborreceu no manto de púrpura o sangue dos homens (pois que o demónio poluira a terra de assassinatos), nos espinhos os pecados, na cana a mão dextra com que o demónio nos manietava; por todos esses Cristo sofreu sua Paixão. Quando Cristo, acrescenta ele, tomou para si a cana, o demónio se armou para combatê-lo, pois se diz que a cana é mortífera às serpentes, daí Cristo tomá-la para si, a fim de nos livrar das astúcias do inimigo.

Ver. 7.— Ele deve morrer, porque se declarou Filho de Deus. ComentaSanto Agostinho o fato de tomarem-no por blásfemo, sacrílego e inimigo de Deus: “Eis aqui o maior dos fardos. Não por isso, torna-se levíssimo, se se considera seu poder soberano; ainda assim, não há falsidade em seu silêncio; como ele é o Unigénito Filho de Deus, e também Rei de Deus coroado no monte Sião, daí nada mais conveniente que confirmasse ambos os títulos: quanto mais crescia em poder, mais paciente na tribulação se mostrava.”

Ver. 11.— Não terias poder algum sobre mim, se de cima não te fora dado. Por isso, quem me entregou a ti tem pecado maior. Os melhores comentadores dessa passagem são Jansénio, Cajetano e Ribera. Não terias poder algum sobre mim, porque sou inocente, e poder-me-ias libertar, se assim o quisesse; todavia, ordenou meu Pai que eu me submetesse a isso para o bem da obra da redenção, dando a ti a faculdade de entregar-me na mão dos Judeus e a autoridade sobre mim. Mas tal só te fora concedido, em razão da acusação dos Judeus. Por isso, quem me entregou a ti tem pecado maior.

Ver. 12.— Desde então Pilatos procurava soltá-lo. Ele parece que o teria feito antes, contudo fá-lo agora com mais contundencia, depois que alguém disse que ele era o Filho de Deus. Caso o condenasse, temia incorrer na vingança de Deus. Entretanto, prevaleceu sobre o temor de Deus o temor de César. Entre os gentios havia muitos filhos de deuses, a quem adoravam como semideuses. (Vide. S. Cirilo in loc)

Ver. 13.— No lugar chamado Lajeado, em hebraico Gábata. Este é o Lugar Solene, o trono do julgamento, erigido sobre muitos degraus, os quais mais tarde se enviaram a Roma e instalaram próximos à Igreja de São João de Latrão. Os fieis reverenciavam-nos amiude.

Ver. 14.— Era a preparação da Páscoa. Tratava-se do Sabá Pascal, o qual calhava em uma oitava. Nesse dia, preparavam-se grandemente para o Sabá do dia seguinte, em que não se poderia trabalhar. Era esse o único Sabá que tinha dia de preparação. Explanam os gregos que era o dia anterior à oferta do Cordeiro Pascal. Contudo, de acordo com os Evangelistas, crucificaram ao Cristo no dia anterior à Páscoa, o qual dia São João aponta como o anterior ao do Sabá Pascal.

1.    Cerca da hora sexta. O que é dizer, segundo a versão árabe, seis horas após o crepúsculo. Afirma São Marcos se tratar da hora terceira. Há os que considerem que São Marcos, nesse passo, corrigiu São João. Todavia, se lê em todos os manuscritos e versões “hora sexta”;

2.    São Jerónimo (sobre o Sl XXVII) considera que há de se corrigir São Marcos por São João, mas nesse passo todos os manuscritos do Evangelho de São Marcos estão acordes, onde se lê hora terceira;

3.    Eutímio (sobre Mc XV) considera que a menção de Marcos à hora terceira deve-se ao fato de que a tal hora os judeus exigiram Sua morte. Contudo, entre exigir a morte e crucificá-lo realmente, é grande a distância;

4.    S. Agostinho diz que se tratava da hora sexta, a contar da hora em que Jesus se preparava para a morte, i. é, a hora nona da noite anterior. Este é, entretanto, um modo como que “brusco” de se resolver a dificuldade (vide S. Aug. in loc. in Ps. lxiii. e de Consens. Evang. iii. 13); e o mesmo santo afirmou que

5.    Em linguagem judaica, era a hora terceira, mas em linguagem latina – a da sentença de Pilatos – era a hora sexta;

6.    Era o final da hora terceira, e começo da hora sexta, porque na hora ou marcação de judeus e romanos uma hora vale três das nossas;

7.    Ribera considera provável que à hora terceira Pilatos capitulou diante do clamor dos judeus, mas só à hora sexta lavrou a sentença formal. Indica São Marcos a preparação para a crucificação, e São João a conclusão e a execução da sentença;

Ver. 15. Não temos outro rei senão César! “Rejeitaram o Cordeiro, escolheram a raposa” para reinar sobre eles, disse Cassiodoro. (Vide Lc XIII, 32: “Ide dizer a essa raposa”)

Ver. 17. Ele próprio carregava a sua cruz, segundo o uso romano. Escreve Agostinho: “Um espetáculo singular: um motivo de zombaria para os incréus, mas um mistério grandioso para os crentes; um sinal eminente de desgraça para os iniquos, uma grande evidência para os fieis; os ateus, como se pode ver, riem-se do Rei que carrega, em lugar do cetro, a cruz do castigo, enquanto os crentes contemplam o Rei que carrega a cruz na qual prega-lo-iam, e a qual mais tarde se imporia na fronte dos reis; escarnece-o o olhar dos incréus pelo mesmo motivo por que o glorifica desde então o coração dos santos.” (Gl VI, 14).

Ver. 23.—A túnica, porém, toda tecida de alto a baixo, não tinha costura. Afirma Eutímio que era comum atribuir à Vírgem Santíssima a feitura da capa.

Alegoricamente. Era a figura da Igreja de Cristo, à qual não é lícito dividir e por isso ferir com o cisma.

Tropologicamente. Considera São Bernado essa uma como Imagem Divina, de tal modo chantada e impressa na natureza que é impossível despedaçar.

Ver. 25.— Junto à cruz de Jesus estavam de pé sua mãe, a irmã de sua mãe (leia-se prima), Maria, mulher de Cléofas (e mãe de São Tiago Menor e Judas Tadeu), e Maria Madalena, que era quem mais se inflavama de amor a Jesus, quando contemplou-o a lavar com Sangue os pecados que ela já lavara com lágrimas. O Cristo assim o quis, para que ele sofresse acerbamente enquanto testemunhava as dores de Sua mãe, a qual, ao compartilhar daquelas dores, haveria de nos ser modelo perfeito de paciência e caridade, como aquilo do Damasceno (Lib IV, 13): “As dores do parto, de que escapou a Virgem, suportou-as ela ao tempo da Paixão com sua piedade maternal, como se o houvera parido novamente ao contemplar Suas chagas.”  Quanto mais se santificava ela, e mais próxima estava do Cristo, maior se tornava o cálice do sofrimento que ele lhe oferecia. Eutímio declara que ela estava mui perto da cruz, e que seu amor ardente sobrepunha-se ao medo que sentia dos judeus. Estacou-se ela firme e erguida de corpo, e mais erguida de alma, a observar e meditar esse grande mistério dos céus – Deus pendente na cruz. Daí Sofrônio (S. Jerome. Serm. de Assump.) considerar a Virgem Santíssima mártir, ou melhor, mais que mártir, “porque, diz ele, ela padeceu na alma. Seu amor era decerto maior que a morte, porque fez sua a morte do Cristo.” E ainda S. Ildefonso (Serm. II de Assumpt.): “Ela era mais que mártir, pois que nela não havia menos amor que aflição. Ela se aparelhara para acolher uma ferida de espada, embora não houvesse mão nem empunhadura. Por certo era ela mais que mártir, pois, ferida de amor até à aniquilação, testemunhara a morte do Cristo, e suportara o tormento da Paixão no imo peito pesaroso.”

 

 

Diz S. Anselmo (de Excell. Virg. cap. v.):

“Quaisquer que fossem as crueldades aplicadas aos corpos dos mártires, tudo era pouco ou quase nada se comparado ao vosso sofrimento, cuja imensidão trespassou de fora a fora os recessos mais secretos das tenras fibras de vosso coração. Não pudera eu acreditar que havias de suportar tormentos tão crueis sem perderes a vida, a não ser que o espírito em si, o espírito de consolação, o espírito de vosso amantíssimo Filho, por cuja morte permanecestes em meio a torturas, vos ensinásseis que não era a morte que o estava a destruir, mas antes o triunfo de trazer para Si todas as coisas, o que logo percebestes quando Ele morria perante vosso olhos.”

Diz S. Bernardo(Lamen. B. Maria): “Nem língua pode falar, nem pensamento pode imaginar, como a aflição abateu-se sobre os delicado sentimentos da Virgem. Eis, ó Virgem, que pagastes com usura os sofrimentos naturais de que não padecestes no parto. Não sentistes dor durante o nascimento de vosso Filho, mas sofrestes redobradas vezes mais as da morte.” Relata S. Matilde uma visão na qual vira um serafim saudando a Virgem Santíssima, devido ao grande amor por que ela considerava a Deus acima de todas as criaturas, amor manifestado especialmente durante a Paixão de seu Filho, quando ela calcou aos pés suas paixões humanas, e regozijou de vê-lo entregue à morte para a salvação do mundo.”

Diz João Gersão (in Magnif.) que ela manifestou excelsa obediênia ao oferecer o Filho ao Pai, nisto conformando-se com a Vontade Divina. Ele a compara à mãe dos Macabeus, à S. Felicidade e à S. Sinforosa, a qual encorajara os filhos a sofrer o martírio em nome da fé.

Descreve S. Brígida a imensa agonia da Virgem (Revel. I. cap. 10, 27, 25 e IV. cap. 23 e 70). “Sua agonia foi minha agonia, disse ela, porque seu coração era meu coração.”

Menciona Adricómio (Descript. Jerusalem) o sítio exato onde ela permaneceu próximo à cruz, um sítio agora mui honrado (diz ele) com a pia veneração dos fieis.

Discute-se aqui se a Virgem Santíssima teceu ou não considerações à visão de seu Filho na cruz. Homens autorizados nos dão ambos os pareceres, sendo que a maior parte deles diz que ela não teceu algum, e para tanto fundamentam essa opinião na conformidade total da Virgem perante a Vontade Divina, e na sua constância e resolução, padecendo antes na alma que nos sentidos e sentimentos.

Considera Salmerão (Lib. x. tract. 41) que ela primeiro desfaleceu, e depois se recuperou e permaneceu próximo à cruz; e que o desfalecimento não a privou da razão, mas a despojou dos sentidos por um tempo. Acrescenta ele que ela consentiu em sofrer, para testemunhar aos homens o amor sem medidas pelo Filho, e a aflição sem medidas, semelhante ao Cristo, o qual no jardim antecipou voluntariamente sua agonia. Como Adão antes da queda, ambos tiveram domínio perfeito sobre os sentimentos.

Escreve a esse respeito S. Ambrósio (de Instit. Virginum, cap. VII.): “A mãe permanceu diante da cruz, e enquanto os homens fugiam, ela restava intrépida. Vede como a mãe de Jesus não se despira da modéstia, ao se vestir da coragem. Viu com olhos amorosos as chagas do Filho, por onde sabia ela que viria a Redenção de todos os homens. Diante do espetáculo pavoroso, ela permaneceu de pé, visto que não temia o assassino. Enquanto pregavam o Filho na cruz, oferecia-se ela a si aos perseguidores, não ignorando o mistério de que ela dera à luz aquele que havia de ressuscitar.” Diz S. Atanásio: “Permaneceu Maria firmíssima e pacientíssima na sua fé em Jesus. Enquanto fugiam os discípulos, e os homens afastavam-se Dele, para a glória de todas aquelas de seu sexo, ela continuou firme e constante na fé, em meio aos incontáveis sofrimentos do Filho; decerto era essa uma visão esplêndida, comparável à sua modéstia virginal. Nem as aflições mais atrozes e amargas desfiguraram sua face. Nem injúria, nem murmuração, nem clamor de vingança a Deus se escutou. Ela permaneceu de pé, qual virgem modesta e disciplinada, de uma paciência cheia de lágrimas e engolfada em pesar.”

Decerto, ao contemplar as sagradas chagas do Filho, ela se fortaleceu tanto que estivera disposta, conforme S. Ambrósio (in Luke xxiii.), a morrer pela salvação do mundo. Não era ela inferior em fé, força e ardor de caridade a Abraão, a quem Deus ordenou que fizesse a hecatombe de Isaque, seu filho, com as próprias mãos. Além disso, a firme crença na ressureição abrandou sua aflição e fortaleceu sua resolução. Ela sabia que ele haveria de ressuscitar ao terceiro dia.

Ver. 26.—Quando Jesus viu sua mãe e perto dela o discípulo que amava, disse à sua mãe: Mulher, eis aí teu filho. O Cristo feriu o coração de sua mãe com a chaga do amor e da aflição, como se dissesse: “Mãe, eu estou a morrer na Cruz, tal como vês. Não poderei mais ficar a teu lado, para cuidar de ti, para te prover e assistir tal como tenho feito até agora. Em meu lugar de filho coloco João; no lugar de Deus coloco um homem, um discípulo do mestre, um filho adotivo em vez daquele teu por natureza, de modo que ele, na condição de virgem e de mais amável para ti, que és a Virgem Mãe de Deus, seja-te todo consolação e todo devoção, qualidades que tua dignidade e idade avançada exigem, e que o zelo e o amor de João te promete e assegura”. O Cristo ensina pois que os filhos devem cuidar dos pais até o fim, diz Teofilato ao citar S. Crisóstomo. Escute-se S. Agostinho. “Eis uma passagem de ensinamento moral. Nosso bom professor instrui os seus com o próprio exemplo, e ensina que os filhos devem cuidar dos pais; era como se o madeiro no qual estavam pregados seus membros também fosse sua cátedra.” Por isso aquilo de S. Cirilo: “Temos de aprender Dele, e por Ele, antes de tudo, que não se deve negligenciar os pais, ainda que se abatam sobre nós sofrimentos intoleráveis.” “Imaginai, diz Teofilato, a tranquilidade com que Ele se desdobrou na cruz: dali ele cuidou da mãe, cumpriu as profecias, prometeu o paraiso ao ladrão; mas antes que ali chegasse, padeceu muita aflição, quando transudou em torrentes, cheio de tribulações.” Daí também aquilo de Eutímio: “Por um lado a fraqueza da natureza, por outro a grandeza de seu poder de resistência.” O Cristo entregou a mãe nas mãos de S. João, a quem ao mesmo tempo colocou em seu próprio lugar como filho dela, para assim nutrirem afeição mútua uma e outro. Pseudo-Cripriano (De Passione Christi) dá as razões para isso. Em primeiro lugar, para prover Sua mãe, que estava encanecendo, o carinho e os cuidados naturais de um filho. É como se dissesse: “Eu estou a morrer. Não posso mais cuidar de te. Passo-te às mãos de João.”

Em segundo lugar, Ele havia de encomendar uma Virgem a um Virgem. “Ao puro confia-se o puro”, diz Teofilato. Parafraseia Nonno: “Ó mãe, amante da virgindade, aceitai vosso filho virgem; e por sua vez disse Ele ao discípulo: Ó vos, amante da virgindade, aceitai a virgem como vossa parenta, ainda que ela vos não tenhais dado à luz.” Diz S. Ambrósio (de Instit. Virgin): “Com quem mais deveria a virgem morar, senão com João, o qual sabia ela ser o herdeiro do Filho, e guardião de sua castidade?” Cioso da pureza da mãe, quisera Jesus que a conservação desse estado (de mãe e virgem) estivesse totalmente assegurado. Como escreve S. Ambrósio (ibid.): “que ninguém há de acusá-la de ter perdido a pureza.”

Em terceiro lugar, Jesus, para demonstrar que José não era seu pai, pô-lo de lado, e em seu lugar colocou João. Escute-se Pseudo-Cipriano: “Vós cuidosamente providenciastes para aquela que era a bendita entre as mulheres a proteção de um Apóstolo, entregando os cuidados da Virgem a um discípulo virgem, de sorte que José não se havia de encarregar de um mistério tão grandioso, mas antes João. Portanto, pede a razão que não mais se considere como marido, nem mais como pai do Cristo aquele que até aqui desempenhara o papel de pai e marido.” Pseudo-Cipriano se deparou com uma objeção tácita: “José teria bons motivos para objetar esse arranjo do Cristo, caso se considerasse a si o marido a partir da carne. Mas como fosse espiritual o mistério daquela união, concordou que a ele se preferisse João para tal ofício, considerando-o mais merecedor, e sobretudo porque o Senhor assim o ordenou.”

Isso somente é assim se fosse vivo José. Contudo, a maioria dos comentadores, com maior probabilidade, pensam em contrário: como não se mencionasse José, e o Cristo entregasse a mãe aos cuidados de João, conclui-se que José estava morto. Se estivesse vivo, certamente o Cristo entregaria Sua mãe a seus cuidados, como acontecera na Encarnação e na Natividade, mormente após ter experimentado a fidelidade e diligência de José na fuga para o Egito, e em outras ocasiões.

Em quatro lugar, em meio às insolências e injurias dos judeus, só João permaneceu intimorado e firme com Maria próximo à cruz. Por isso, mereceu ele que Jesus o adotasse como irmão, e o alojasse em seu quarto como filho da Virgem Maria. Ademais, na pessoa de João, o Cristo entregou todos os apóstolos, ou melhor, todos os fieis, a sua mãe, especialmemte os castos e virgens, para segui-lo mais de perto na cruz, e tornar-se assim mais amáveis e unidos a ele, tal qual João, a quem Pseudo-Cirilo chamou de Valete de Cristo.

O discípulo que amava. Para quem dava maiores mostras de amor, já que era mais moço que os demais apóstolos, e mais modesto e casto; por isso amava-o mais que aos outros.

Mulher, eis aí teu filho.  Chama-a ele de mulher, e não de mãe, “para que esse apelido meigo não ferisse o coração de mãe”, como disse Batista de Mântua; para não atiçar os escribas e fariseus contra ela; para demonstrar que ele descartou todas as afeições humanas, e desistiu de todas as relações humanas, e desejou ensinar o abandono de si; e finalmente para animar na Virgem a coragem e a força de alma de suportar tudo com fortaleza, e recordá-la da mulher resoluta que Salomão profetizou (Pr XXXI, 1). Não a chamou de mãe, porque a Virgem Santíssima sofreria por mais tempo que o Cristo: o sofrimento deste acabou com a morte, enquanto o sofrimento e compaixão daquela aumentaram mais e mais; porque as dores de Maria já se haviam de reavivar quando recebesse o corpo descido da cruz; porque ainda repousaria durante três dias no sepulcro, e até que surgisse de entre os mortos e aliviasse a todos com a consolação e a glória da ressureição, os sofrimentos da cruz, os quais ela testemunhou de muito perto, deixariam uma profunda impressão na alma da Virgem, e lhe causariam dor. Novamente, o Cristo deixou a Virgem Santíssima para trás, para oferecê-la como mãe aos Apóstolos e aos fieis, reunir os dispersos, confortar os aflitos, levantar os abatidos, aconselhar os hesitantes e ansiosos, e em todas as provações dirigi-los, instruí-los e animá-los.

[...]

Ver. 27. Depois disse ao discípulo: Eis aí tua mãe! Ama-a, atende-a, ajuda-a como se fosse tua mãe. Por sua vez, dedica-te a ela, como se fosse tua mãe, em cada necessidade, tentação, perseguição e aflição. Ela te afagará com carinho maternal, e consolará e protegerá, e pedirá por ti ajuda ao Filho. Tais palavras do Cristo não foram ditas só com a boca, como palavras de homem, mas antes são palavras de Deus, reais e eficazes, e cujos efeitos se declararam. Em consequência, imprimiram elas em S. João uma afeição e inclinação filiais à Virgem Santíssima, como se fosse ela sua mãe. Exclama Teofilato: “Maravilha das maravilhas! Como honraria Ele mais seu discípulo, senão tornando-o Seu irmão? Quão proveitoso é pemanecer próximo à cruz, e seguir perto ao Cristo em seus tormentos!” E ainda S. Crisóstomo: “Que honraria ele quisera dar a seu discípulo! Quando estava prestes a partir, Ele deixou a mãe aos cuidados de S. João. Como fosse natural que ela, como mãe, lamentasse e buscasse proteção, providencialmente o Cristo confiou-a a seu discípulo amado, a quem disse: ‘Eis aí a tua mãe!’, ligando-os daí então com os laços do amor.”

Eis aí tua mãe!E mãe de teus companheiros Apóstolos. Por isso, os fieis (como ensina S. Bernardo) se devem entregar a ela com toda confiança e amor. É a Eva dos crentes, a mãe dos viventes, a quem os santos e sábios de todos os tempos se entregaram a si.

Escute-se S. Agostinho: “Ao proferir aquelas palavras, os dois mui amados não cessaram de se prorromper em lágrimas; ambos estavam em silêncio, para que lhes não saisse a voz muito embargada; esses dois virgens escutavam o Cristo falar, e viam-no morrer pouco a pouco: ambos choravam amargamente, e lamentaram amargamente, pois que a espada da aflição lhes trespassou de fora a fora os corações.”

E (i. é, então, porque Jesus ordenou-o) dessa hora em diante o discípulo a levou para a sua casa. Alguns leem suam, a casa dele, como na paráfrase de Nonno. Sugere Beda “levou-a como se fosse sua mãe”, ou melhor ainda, “sob sua responsabilidade”. Diz S. Agostinho: “não a levou somente para uma casa, mas para um lugar em que dispensaria à Virgem o necessário cuidado, o qual ele subtendia dever dispensar.” Por isso, levou-a S. João para Efésio; declara o Concílio de Efésio (cap. XXVI. Epístola Sinodal) que ambos viveram por um tempo em Efésio (vide Cristóvão Castro in Hist. Deiparæ.)

Fora esse o testamento do Cristo, e S. João foi o testamenteiro. Como aquele passo de S. Ambrósio, sobre Lc XXIII: “Ele executou o testamento na cruz, e S. João o testemunhou – uma testemunha conveniente para tão grande testador.” Junte-se a isso o fato de que José estava morto. Ainda S. Ambrósio (ibid.): “A esposa não deveria se divorciar do marido, contudo ela, que velou o mistério sob a aparência de casamento, uma vez revelado o mistério, não precisava mais dessa união.” Diz Epifânio (Her. XXVIII): “Se ela tivesse marido, ou casa, ou filhos em casa, deveria retirar-se para junto deles, e não com um estranho.” Vede quão podre era a Virgem Santíssima, e quão devotada à pobreza.

Ver. 28.— Em seguida, sabendo Jesus que tudo estava consumado, para se cumprir plenamente a Escritura, disse: Tenho sede, após aproximadamente três horas. Foi logo no início da crucificação que ele encomendou a mãe a S. João. A referência escritural é o Sl XIX, 22. Ele disse que tinha sede para padecer o tormento do vinagre. Como aquilo de S. Agostinho: “Vós ainda não cumpristes esse passo. Daí-me aquilo que vós mesmos sois, um fel cheio de acidez e amargura; daí-me vinagre, e não vinho.”

O Cristo estava com sede, pois não bebia nem comia desde a Última Ceia, na noite anterior, e também havia transudado todo líquido e sangue de Seu corpo, durante a flagelação e a crucificação. E o amargor de suas dores aumentou-lhe a sede; como dizia S. Cirilo: “A aflição inflama-nos de calor, seca-nos a umidade até às fezes, e queima-nos totalmente com um fogo impetuoso.” As mandíbulas se travam de secura, e ficam áridas de sede. As palavras do salmista (XXII, 6) cumpriram-se na pessoa do Cristo. Há quarenta anos, o chanceler de Louvaine, em seu leito de morte, disse em minha presença que nunca compreendera aquelas palavras, até que ele mesmo sofresse de sede e secura semelhantes, aprendendo daí quão grande era a sede do Cristo. Misticamente, o Cristo tem sede de salvação das almas. (vide Belarmino em “As Sete Palavras do Cristo na Cruz”)  “Deus está sedento de almas sedentas de Deus”, diz Nazianzeno no Tetrastichisis, de modo que O amemos e desejemos insaciavelmente, e digamos com o salmista: “Minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo; quando irei contemplar a face de Deus?” (Sl XLI, 3).

Ver. 30.— Havendo Jesus tomado do vinagre, disse: Tudo está consumado. Inclinou a cabeça e rendeu o espírito. Assim como decretara o Pai, desde a eternidade, que Eu havia de padecer e aturar os sofrimentos e os mistérios, assim ordenara Meu nascimento e desejara que os profetas profetizassem a Meu respeito. Aqui resta tão-somente o fecho de Minha morte, para completar Meu caminho de dores, para expiar com isso a sentença de morte, em que incorreu Adão quando pecou, e para restaurar a vida à humanidade. Abraço a morte e rendo o espírito nas mãos de Meu Pai. (Mt XXVII, 48 e seq.)

Pronuncia o Cristo sete palavras na cruz: S. João relatou três, e os demais Evangelistas as outras quatro.

Ver. 31.— Os judeus temeram que os corpos ficassem na cruz durante o sábado, porque já era a Preparação e esse sábado era particularmente solene. Rogaram a Pilatos que se lhes quebrassem as pernas e fossem retirados (Vide Dt XXI, 22). Assim se fez para que o horror dos sofrimentos não contaminasse nem obscurecesse uma das mais solenes dentre as festas judaicas – é o que afirma S. Agostinho. Era mister, além disso, que morresem e fossem sepultados antes do crepúsculo, que marcava o começo do sabá. “Pois o sol, diz Teofilato, não haveria de ver seus sofrimentos.”

Era assim o sabá da oitava de Páscoa, e por isso mais solene que os outros sabás.

Quebrar-se-iam suas pernas a potentes golpes de borduna ou barra de ferro, para com a intensidade da dor ou a perda de sangue apressar-lhes a morte, ou ainda porque residisse a força vital nos joelhos e nas pernas. (vide Plínio, N. H. XI 45.)

Todavia, por que não lhes perfuravam os corações com uma lança ou espada, dando-lhes morte mais fácil e rápida? [Os romanos] preferiam quebrar as pernas dos criminosos, para lhes intensificar os sofrimentos, sobretudo quando se excruciava criminosos famigerados. Provavelmente, desejavam os judeus fazê-lo com o Cristo, para saciarem seu ódio cruel; considera Barónio que eles Lhe deram vinagre a fim de que vivesse para sofrer essa derradeira tortura. Contudo, Ele já estava morto, não porque temesse esse último castigo, mas antes devido ao mistério (especialmente nesse momento), e ao esgotamento de Suas forças em padecimentos anteriores. (vide Lipsius, de Cruce, ii. 14.)

Os judeus parecia que apressavam a retirada dos corpos da cruz, não por zelo ao sabá, senão por temor, vergonha e consciência de culpa. Tão logo viram obscurecer-se o sol, e rasgar-se o véu do templo, e sentiram o terremoto etc., todos se condenaram o tratamento dispensado ao Cristo, e temeram que Deus os punisse, ou o povo se soblevasse contra eles, acusando-os de assassinos do Cristo. Ordenaram pois que O descessem do trono do triunfo, e o sepultassem. (vide Lc.)

Ver. 33.Chegando, porém, a Jesus (para lhe quebrarem as pernas;diz Eutímio: “Vieram a Ele em último, como se desejassem agradar aos judeus ao ofendê-lO), como o vissem já morto, não lhe quebraram as pernas. Não quisera Ele ter as pernas quebradas, pois que desejava levantar-se de entre os mortos intacto de corpo. É como dizia Lactâncio: “Desceram inteiro Seu corpo da cruz, e depositaram-no com denodo no sepulcro, a fim de que, não se estragando nenhuns dos membros, conservasse Sua aparência primitiva para a ressureição.”

Em lugar de lhe quebrarem as pernas, trespassaram-Lhe o costado, mas isso depois de morto, e não vivo, conforme pensavam alguns. O Concílio de Viena condenou tal erro. Enquanto vivia, o Cristo ofereceu o Corpo inteiro por nós; na morte, quisera dar-nos o coração. Por isso, perfuraram-no com a lança, e o sangue e a água jorram Dele – porque quisera dar-se inteiramente por nós.

Direis que o Cristo já era morto, e o trespasse do coração não lhe granjeou mérito algum. Contesto e afirmo que enquanto vivia Ele sabia que seria ferido, e que ofereceu-a ao Pai por nós, e com ela também mereceu e efetuou nossa salvação. Direis depois: “Bem sabemos que o sangue jorra do corpo de pessoas assassinadas, na presença do assassino. Era aquilo pois um efeito natural.” Afirmo que não é natural, mas quase miraculoso, e serve de apontar e confundir o assassino. E no caso do Cristo, muito mais miraculoso será, como havemos de demonstrar.

Ver. 34.— Mas um dos soldados abriu-lhe o lado com uma lança. Como se duvidassem, diz S. Cirilo, de que Ele estivesse realmente morto; se não, precipitariam a morte. Era dever dos soldados executar a sentença até ao fim, e certificar de que não levariam-nos antes de que estivessem mortos. Acrescenta S. Crisóstomo: “Para agradar os judeus, abriram-lhe o costado e insultaram-no já morto. Ó malíssimo e atrocíssimo desígnio!” Alguns supõem o soldado um centurião, o qual teria bradado: “Verdadeiramente, este homem era Filho de Deus!” (Mt XXVII, 54) Mas não é verossímil que quem assim bradasse arriscasse cometer tal ato. No “Christus Patiens”, sugere Nazianzeno que ele estava cego e recuperou a visão. Barrádio colheu muitas versões sobre o assunto, as quais rejeitou Barónio como apócrifas. Note-se: 1. Que o soldado era dos tais que quebraram as pernas dos dois malfeitores, e teria quebrado as do Cristo se vivo estivesse. Contudo, para atestar Sua morte, trespassou Seu costado, e por isso não Lhe quebrou as pernas; 2. Que alguns afirmam ser uma lança, outros uma espada, o objeto utilizado; 3. Que na Vulgata parece que se lê énoise, mas no grego lê-se énuse; 4. Que a chaga era lão larga que se poderia meter a mão inteira nela (vide Jn XX, 27); 5. Que se furou o lado direito, conforme a representação dos pintores. Alguns pensam que Ezequiel previu a ferida. (Ez XVII, 2) S. Francisco também recebera a chaga no lado direito (vide S. Boaventura, Ribadaneira etc..); 6. Que então o Cristo foi ferido seis vezes; 7. Que a ferida parece que atravessava de lado a lado, como diz Prudêncio em várias passagens, tais como, e.g.:

 

Ferido da cruel lança nos dois costados,

Água e sangue jorraram em jato separados:

A pureza e a vitória são aqui figurados.

 

De Pass. Christi [apud Diptych, num. XIII.]; Peristeph. Hymn viii. [151; e Cathomer, Hymn ix. [85]; Pseudo-Cipriano (de Pass.) também o afirma. Fala Teofiláto dessa ferida no plural, e Prudêncio parece indicar que da ferida maior jorrou sangue, e da menor à esquerda água. Mas essa ferida à esquerda era tão pequena que não se levou em conta. Daí referirem apenas a cinco ferimentos. (Revelações de S. Brígida, IV, 40; VII, 15; e II, 21, onde se lê ao mesmo.)

E imediatamente, saiu sangue e água. Ambos juntos (e não sepadados, como na paráfrase de Nonno), mas não misturados, a fim de que se pudessem distingui-los uma e outro. Se fosse um efeito só natural, não aconteceria desse modo, pois que o sangue do morto coagula, não podendo fluir até fora. Contudo, como estatui Inocêncio III, era aquilo sangue verdadeiro, e não apenas soro. (Lib. iii. Decret. tit. 41, de Celebr. Miss. cap. viii.) Erra por isso Calvino ao dizer que a água era do pericárdio. Portanto, foi miraculoso o fluxo de sangue e água, como aquilo de S. Ambrósio sobre Lc XXIII., e conforme dizem Eutímio e Teofilado. Nota este último: “A contumélia transmutou-se em milagre; era admirável que o fluxo de sangue emanasse do corpo morto. Contudo, os cavilosos arguiriam que ainda restava alguma força vital no corpo. Porém, a água que saiu junto do sangue pôs cobro à qualquer disputa.” Mais adiante, afirma: “O mistério confundiu os arménios, os quais nos mistérios não juntavam água e vinho. Assim afigura-se que eles não acreditavam que saira água do costado (o que seria ainda mais admirável), mas tão-somente sangue. E com esse procedimento, apagavam o impressionante milagre. O sangue é símbolo do homem crucificado, contudo a água o é Daquele que é mais que o homem, ou seja, Deus.” (vide Adão Coutzen e Francisco Lucas, para essa passagem).

Isso se deu assim devido ao mistério. E por que o mistério? 1. Para demonstrar a realidade da natureza humana do Cristo (vide (I Jn V, 7.); 2. Para significar que a Esposa do Cristo, a Igreja, também se originou do costado do segundo Adão, o qual morreu na cruz. Simbolicamente, i. é, figuradamente, significa que o Sangue do Cristo ganhou, fundou e santificou a Igreja. Como aquilo de S. Ambrósio (sobre Lc XXIII): “Fluiu a vida a partir do corpo morto. Fluiram dali água e sangue, aquela para a purificação, esta para a redenção;” e como dizem S. Cirilo e S. Crisóstomo, a água significa batismo, que é o começo de tudo, da Igreja e dos demais sacramentos, e o sangue representa a Eucaristia, que é o término e perfeição dos sacramentos. Todos os sacramentos tomam a Eucaristia como seu começo e fim. Por isso afirma Agostinho (in loc.) que todos os sacramentos fluiram do costado do Cristo, sob a capa do mistério. Eis suas palavras: “Não é dito que ele ‘golpeasse’ ou ‘ferisse, mas antes que ‘abriu’ o costado do Cristo, e que a porta da vida haveria, como foi, de ser aberta deste modo, e que dal




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