"Homens da Galiléia, porque ficais aí a olhar para o céu? Esse Jesus que vos acaba de ser arrebatado para o céu voltará do mesmo modo que o vistes subir para o céu. (At 1,11) " 
CAIFÁS E JUDAS
CAIFÁS E JUDAS
Giovanni Papini
O Princípio de Caifás
O sinédrio era a alta assembleia, o conselho supremo da aristocracia dominante na capital. Compunha-se de sacerdotes, ciosos de clientela que lhes dava poderes e prebendas; de escribas, encarregados de conservarem a pureza da lei e de transmitirem a tradição, de antigos, representando os interesses da burguesia moderada e opulenta.
Todos ficaram de acordo em que era necessário apoderar-se de Jesus, de surpresa, e condená-lo como blasfemador de Deus e do sábado. Só Nicodemus tentou advogar-lhe a causa, mas fecharam-lhe logo a boca. “Que fazer? dizem eles. Este homem faz milagres e arrasta consigo numerosos discípulos. Se o deixarmos livre, todos crerão nele e virão os romanos destruir nossa cidade e a nossa nação”. É a razão do Estado, a salvação da pátria, invocada sempre pelos conciliábulos em seu auxílio, quando se trata de mascarar com uma legalidade ideal a defesa de interesses particulares.
Caifás, sumo-sacerdote desse ano, cortou as dúvidas com a máxima que sempre justificou, ante a sabedoria do mundo, a imolação dos inocentes.
“Não compreendeis nada e não sentis quão vantajoso é para vós que pereça um só homem pelo povo, em vez de toda a nação”.
Esta máxima, na boca de Caifás nesta circunstância, e sobretudo no que ela subentendia, era infame e, como todos os discursos havidos no Sinédrio, hipócrita.
Mas, elevada a um plano superior, transportada para o absoluto — substituindo “nação” por “humanidade” — o princípio enunciado pelo presidente do patriciado circunciso era o mesmo princípio aceito por Jesus no seu coração, e que deveria tornar, sob uma outra forma, o martírio crucial do Cristianismo. Caifás, devendo entrar sozinho no Santo dos Santos deserto para oferecer a Javé os pecados do povo, ignorava o quanto as suas palavras, grosseira expressão de sentimento cínico, estavam de acordo com o pensamento da sua vítima.
O pensamento de que só o justo pode pagar a injustiça, de que só o puro pode liquidar as dívidas dos impuros, de que só Deus, na sua infinita magnificência, pode expirar as faltas cometidas pelo homem contra Ele, este pensamento parecendo ao homem o cúmulo da loucura, precisamente porque é o cúmulo da sabedoria divina, não resplandecia certamente na alma infeta do saduceu atirando aos seus setenta cúmplices o sofisma destinado a emudecer-lhes os remorsos eventuais. Caifás, que devia ser justamente com os espinhos da coroa e a esponja do vinagre, um dos instrumentos da Paixão, não pensava dar nesse momento um testemunho solene, conquanto velado e involuntário, da divina tragédia que ia começar.
E contudo este princípio de que o inocente pode pagar pelos culpados, de que a morte de um só pode servir para a salvação de todos, não era de todo estranho à consciência antiga. Os mitos heróicos dos pagãos conheciam e celebravam os voluntários sacrifícios dos inocentes.
Perpetuavam a lembrança de Pilades oferecendo-se em sacrifício no lugar do culpado Oreste; de Macária, descendente de Hércules, salvando com a sua vida a vida dos seus irmãos; de Alceste entregando-se à morte para desviar do seu caro Admete a vingança de Artemísia; das filhas de Eritreu, imolando-se, para que o pai fugisse aos golpes de Netuno; do velho rei Codro atirando-se no Ilisso para que os atenienses levassem a vitória; de Décio Muro e de seus filhos consagrando-
Em Atenas, durante as festas Tergelias, dois homens eram sacrificados para afugentar das cidades as sanções divinas; o sábio Epimênides recorreu a sacrifícios humanos para purificar Atenas profanada pelo assassínio dos partidários de Quilon; em Cúrio de Chipre, em Terracina, em Marselha, precipitava-
Mas estes sacrifícios, se eram espontáneos, salvaram somente um indivíduo ou um grupo restrito de homens, se eram forçados ajuntavam um novo crime aos crimes que pretendia expiar: exemplo de afeição privada ou de malefício da superstição. Não se vira ainda um só homem pôr sobre os próprios ombros todos os pecados dos homens, um Deus aprisionar-se na abjeção da carne para salvar todo o género humano e torná-lo capaz de se elevar da animalidade até a santidade, da humilhação da terra até o Reino dos Céus. O Perfeito que assume todas as imperfeições, o Justo que se sobrecarrega da universal justiça, aparecera nos tempos de Caifás, sob a aparência de um fugitivo, de um miserável. O que devia morrer por todos, o operário Galileu perturbador dos ricos e dos sacerdotes de Jerusalém, está no monte das Oliveiras, próximo do Sinédrio. Os setenta que não sabem o que fazem, que não sabem que estão obedecendo neste momento à vontade dos perseguidos, decidem prendê-lo antes da Páscoa.
Mas, sendo vis como todos os senhores, só uma coisa os detém: o temor dos que amam a Jesus: “E os príncipes dos sacerdotes e os escribas procuravam um meio de prendê-lo à traição e de condená-lo à morte, porque diziam entre si: Não o façamos durante a festa para que não haja tumulto entre o povo”.
No dia seguinte, para tirá-los desta dificuldade, eis que aprece um dos doze: o que guardava a bolsa — Judas Iscariotes.
O Mistério de Judas
Só dois seres no mundo conheceram o segredo de Judas: Jesus e o Traidor.
Sessenta gerações de cristãos procuraram decifrá-lo, mas o Iscariotes, conquanto tivesse deixado no mundo nuvens de discípulos, ficou obstinadamente indecifrado.
É o único mistério humano que há nos Evangelhos. Compreendemos com facilidade o espírito demoníaco de Herodes, o rancor invejoso dos fariseus, a raiva vingativa de Anás e Caifás, a fraqueza covarde de Pilatos. Mas não compreendemos com igual evidência a ignomínia de Judas. Os quatro historiadores falam-nos muito pouco dele e dos motivos que o levaram a vender o seu Rei.
“Satanás, dizem eles, penetrou nele”. Mas estas palavras são apenas a definição do seu crime. O mal se apossou do seu coração: logo, foi de repente. Antes desse dia, talvez antes do banquete de Betânia, Judas não estava nas mãos do Inimigo. Mas por que repentinamente se precipitou nele?
Por que Satanás entrou justamente nele e não num dos outros?
Trinta dinheiros são uma soma miserável sobretudo para um homem ávido de riqueza. Admitindo que o seu valor efetivo ou, como dizem os economistas, o seu poder aquisitivo nesse tempo, fosse dez vezes superior, não parece que trinta dinheiros sejam o preço suficiente para levar um homem, descrito por seus companheiros como um avarento, a cometer a mais repugnante perfídia de que se lembra a história. Aventou-se que trinta dinheiros era o preço de um escravo. Mas o texto do Êxodo diz, ao contrário, que, se um escravo ou escrava leva a cornada de um boi, o proprietário do boi deve pagar trinta siclos. O caso era muito diferente para que os doutores do sinédrio tivessem podido pensar então na observância escrupulosa de um precedente. O indício mais terrível em favor da traição é a função que tocava a Judas, entre os doze.
Entre eles havia um antigo publicano, Mateus, a quem mais naturalmente competia a guarda deste pouco de dinheiro necessário para as despesas da comunidade. Ao invés de Mateus, vemos o Iscariotes como o depositário da oferta. O dinheiro é pérfido e cheio de perigos. O simples manuseio de moedas, mesmo pertencentes a outrem, envenena. Não é de admirar que João dê a Judas como ladrão: “Guardando a bolsa, roubava o que lhe punham dentro”.
E, contudo, não se pode deixar de pensar que um homem ambicioso de dinheiro não poderia continuar por muito tempo em tão pobre companhia. Se quisesse viver de roubos, teria procurado um emprego mais favorável e rendoso do que o que aceitara.
E se tivesse necessidade desses miseráveis trinta dinheiros, não poderia tê-los adquirido de outro modo, fugindo que fosse com a bolsa, em vez de propor aos sacerdotes a venda de Jesus?
Estas reflexões do senso comum, em torno de um crime tão extraordinário, levavam muitas pessoas, desde os primeiros tempos do cristianismo, a procurar outras explicações para a negociação infame.
Uma seita de hereges, os cainitas, imaginou que Judas, sabendo que Jesus devia, por sua própria vontade e pela do Pai, dar-se à morte por traição — para que nada faltasse à tortura da grande expiação — consentiu em aceitar dolorosamente a eterna infâmia, para que tudo se cumprisse. Instrumento necessário e voluntário da Redenção, Judas foi, segundo eles, herói e mártir ao mesmo tempo, digno de ser venerado e não amaldiçoado. Segundo outra opinião, Judas, amando o seu povo e esperando a libertação e inclinando-se talvez aos sentimentos dos zeladores, unira-se a Jesus na esperança de que este fosse o Messias imaginado então pela plebe; o Rei da reconquista e da restauração de Israel. Quando, pouco a pouco, apesar da sua obtusidade intelectual, percebera pelos discursos do Messias que dera com um Messias de espécie diferente, para aliviar a própria desilusão, entregou-o aos seus inimigos. Mas esta fantasia que não encontra apoio algum nos textos, canônicos ou apócrifos, não justifica o vendedor de Cristo: poderia ter abandonado os doze e achado outros companheiros melhores para o seu empreendimento.
Outros disseram que o verdadeiro motivo deve ser procurado na perda da fé. Judas crera firmemente em Jesus e agora não podia mais crer. Os discursos sobre o próximo fim, a hostilidade ameaçadora da metrópole, o retardamento da manifestação vitoriosa, terminaram por fazer-lhe perder toda a confiança naquele que seguira até então.
Não percebia a aproximação do Reino e via a iminência da morte. Talvez, imiscuindo-se entre o povo, ouvira murmurar alguma coisa sobre as intenções dos sacerdotes e temera que o sinédrio, não se contentando com uma só vítima, quisesse condenar todos aqueles que, havia tanto tempo, seguiam a Jesus. Tomado pelo medo — este teria sido o sinal para que Satanás entrasse nele — passou-se para o inimigo pensando salvar pela traição a própria vida. A incredulidade e a covardia seriam os móveis ignominiosos da sua ignomínia.
Um inglês, célebre como fumador de ópio, imaginou uma paradoxal apologia do traidor.
Judas cria; cria até demais. Estava tão persuadido de que Jesus era verdadeiramente o Cristo, que quis obrigá-lo, entregando-o ao tribunal, a manifestar enfim a legitimidade da sua missão messiânica. Não podia crer, tão grande era a sua esperança, que Jesus fosse condenado à morte. Ou então, se devia verdadeiramente morrer, sabia com certeza que ressuscitaria logo, para reaparecer à direita do Pai, como rei de Israel e do mundo. Para apressar o grande dia, em que os discípulos receberiam a recompensa da sua fidelidade, Judas, certo da intangibilidade do seu divino Amigo, quis forçar-lhe a mão e dar-lhe a oportunidade, pondo-o diante daqueles que ele venceria, de demonstrar a sua qualidade de verdadeiro Filho de Deus. O ato de Judas não foi uma traição, mas um erro, devido à má compreensão do ensino do Mestre. Não traiu, pois, por vingança, por avareza ou covardia, mas por estupidez. Outros, ao contrário, insistem na vingança. Não há traição sem ódio. Por que Judas odiaria a Jesus? Alegam o jantar na casa de Simão e o perfume da Carpideira. A repreensão de Jesus devera exasperar o discípulo já várias vezes repreendido, sem dúvida, pela sua artificiosa sovinice. Ao rancor da repreensão, ajuntara-se a inveja, sempre aberta nas almas vulgares. E, no momento em que lhe pareceu possível vingar-se sem perigo, encaminhou-se para o palácio de Caifás.
Mas pensaria verdadeiramente que a sua denúncia levaria Jesus à morte? Ou supunha, ao contrário, que se contentariam em flagelá-lo e proibir-lhe a pregação ao povo? A continuação da história faz supor que a condenação de Jesus o desnorteou como uma conseqüência terrível e inesperada do seu beijo. Mateus narra o seu desespero de maneira a sugerir que sentiu um verdadeiro horror pelo que decorrera do seu crime. As moedas que embolsou queimaram-no; e quando os sacerdotes as recusam, atira-as no Templo. Mesmo após a restituição, não tem paz e corre a enforcar-se para morrer no mesmo dia que a sua vítima. Lucas, no Atos, dá uma outra versão do fim de Judas, mas a tradição cristã preferiu sempre a narração do remorso e do suicídio.
Em vão os interrogadores procuraram desembrulhar a meada: entrosam-se os mistérios em torno do mistério de Judas. Não trouxemos ainda o testemunho d’Aquele que sabia melhor que todos, até do que o próprio Judas, o verdadeiro segredo da traição.
Só Jesus, que penetrava no fundo da alma de Iscariotes como de todas as almas, e que sabia de antemão o que Judas devia fazer, poderia dizer a última palavra.
Jesus escolhera a Judas para que ele fosse um dos doze como os outros, um porta-voz da Boa Nova. Tê-lo-ia escolhido e conservado consigo junto de si à sua mesa se o julgasse o malfeitor incurável? Ter-lhe-ia confiado o que havia de mais caro e de mais precioso no mundo: a pregação do Reino?
Até os últimos dias, até a última noite, Jesus não o tratou diferentemente dos outros. A ele também lhe deu uma parte do seu corpo sob a aparência do pão, uma parte do seu sangue sob a aparência do vinho. Os pés de Judas — estes pés que o levaram à casa de Caifás — são lavados e enxugados também, por estas mãos que serão transpassadas, com a cumplicidade de Judas, no dia seguinte. E quando Judas chega, entre reflexos de espadas e clarões de lanternas, sob as sombras negras das Oliveiras e beija — “com efusão” diz Mateus — esta Face ainda banhada em suor de sangue, Jesus não o repele, mas diz-lhe:
— Amigo, que vieste fazer?
Amigo! É a última vez que Jesus fala a Judas e, até nesse momento, só lhe sabe dar o seu nome familiar, o nome do primeiro dia. Judas não é, para ele, o homem das trevas que vem pela escuridão entregá-lo a miseráveis esbirros, mas o amigo, aquele mesmo que poucas horas antes se assentara junto dele em torno do prato do cordeiro e de ervas amargas, aquele que levara aos lábios o seu corpo, aquele que tantas vezes, nas horas de repouso, à sombra de um muro ou de uma latada, escutou junto com os outros, como discípulo, como amigo, como irmão, as grandes palavras da Promessa. Cristo dissera à mesa da Ceia: “Ai do homem por quem o Filho do Homem foi traido! Seria melhor para ele nunca tivesse nascido”. Agora que Judas ajustou à perfídia da traição o ultraje do beijo, Aquele que ensinou o amor pelos inimigos, encontra a doce, a habitual, a divina palavra:
— Amigo, que vieste fazer?
O testemunho do traido aumenta ainda a nossa incerteza, em vez de levantar o véu do tremendo segredo. Sabe que Judas é um ladrão e confia-lhe a bolsa; sabe que Judas é perverso e confia-lhe um tesouro mais precioso que todo o dinheiro do mundo; sabe que Judas deve traí-lo e fá-lo participante da sua divindade, oferecendo-lhe o pão e o vinho, vê a Judas guiando os que vão prendê-lo, e dá-lhe ainda mais uma vez, como antes, e sempre, o santo nome de amigo.
“Serias melhor se não tivesse nascido!”
Estas palavras mais do que uma condenação podem ser tomadas como um movimento de piedade ao pensamento de um destino inevitável. Se Judas odeia a Jesus, nunca Jesus manifesta horror por Judas; porque Jesus sabe que a negociação infame de Judas é necessária como necessários serão a fraqueza de Pilatos, a raiva de Caifás, os escarros dos soldados, o madeiro e os pregos da cruz. Sabe que Judas deve fazer o que faz e não o maldiz, como não maldiz o povo exigindo-lhe a morte ou o martelo pregando-o na cruz. Só um pedido lhe vem aos lábios para abreviar a espantosa agonia: “Faze depressa o que intentas fazer”.
O mistério de Judas está ligado por um duplo nó ao mistério da Redenção e permanecerá para nós um mistério. Nenhuma analogia pode esclarecer-nos. José também foi vendido por um de seus irmãos chamado Judas, como o Iscariotes, e vendido aos mercadores ismaelitas por vinte moedas de prata. Mas José, figura carnal de Cristo, não foi vendido aos seus inimigos, nem para ser condenado à morte. A perfídia de que foi vítima levou-o ao poder, tornou-se tão rico que enriqueceu o seu pai e foi tão generoso que perdoou a seus irmãos.
Jesus não só foi traído, mas vendido, traído por dinheiro, vendido por pouco preço, dado em troca de moeda corrente.
Foi objeto de troca, mercadoria paga e entregue. Judas o homem da bolsa, o caixa, não se apresentou só como delator, não se ofereceu como sicário, mas como negociante, como vendedor de sangue. Os Judas que se conheciam bem nesta matéria, os carniceiros ordinários do Altíssimo, os estranguladores e esquartejadores de vítimas, foram os primeiros e últimos do comércio improvisado: magro negócio na verdade, mas uma verdadeira transação mercantil, um contrato válido, contrato verbal, mas honestamente observado pelas partes contratantes.
Se Jesus não fosse vendido, qualquer coisa faltaria à perfeita ignomínia da expiação; se fosse comprado caro, trezentos siclos em vez de trinta, com ouro e não com prata, a ignomínia teria diminuído um pouco, mas de qualquer maneira teria existido.
Estava escrito, desde toda a eternidade, que seria comprado, comprado a preço baixo, mas, em todo caso, por dinheiro. Para que o valor infinito se revelasse sobrenatural, mas comunicável, era necessário trocá-lo por um valor mínimo, por um valor metálico, que nem chega mesmo a ser um valor. Não acontecia o mesmo com ele, o Vendido, querendo comprar com o sangue de um só todo o sangue derramado na terra, desde Caim até Caifás?
Se ele fosse vendido como escravo, como o eram tantos corpos dotados de alma, por esse tempo, nas praças, se fosse vendido como propriedade, como um capital humano, como um instrumento vivo de trabalho, teria sido quase nula a ignomínia e a Redenção estaria retardada.
Mas foi vendido como um animal para o matadouro, como o cordeiro que o carniceiro compra para matar, para revender no retalho, para distribuir aos pedaços, pelos comedores de carne. O sacrificador sagrado, Caifás, jamais teve, nos seus dias felizes, uma vítima tão imensa. Há dois milênios nutrem-se os cristãos desta vítima; está sempre intacta e os devoradores não se saciam.
Cada um de nós deu a sua quota, infinitamente pequena, para comprar a Judas esta vítima jamais consumida. Todos contribuimos para amontoar a soma, visível preço do sangue do Libertador; Caifás foi apenas nosso mandatário.
O campo de Halcedama pago com esse dinheiro, comprado como preço do sangue, é a nossa herança, é o nosso bem. E este campo alargou-se misteriosamente, dilatou-se a ponto de cobrir a metade da superfície da terra: cidades inteiras, cidades populosas, calçadas iluminadas, higienizadas, cidades de bazares e de bordéis, resplandecem nele, de sul a norte. E para que o mistério se torne cada vez maior, os próprios descendentes de Judas, cem vezes multiplicados pelas traições de muitos séculos, por todos os negócios concluidos e sobretudo valorizados pelos juros, tornaram-se inumeráveis. Nada fecunda e frutifica tanto como o sangue. Agora — as estatísticas, verdadeiros arúspices da nossa época, o atestam — todos os recintos do Templo não bastariam para conter as moedas ganhas até os nossos dias, por estes trinta dinheiros que nele atirou, no delírio do remorso, o homem que vendeu o seu próprio Deus.
História de Cristo, Giovanni Papini, Cia Editora Nacional, São Paulo, 1960.
Este artigo instrutivo e evangelizador está em
