"Homens da Galiléia, porque ficais aí a olhar para o céu? Esse Jesus que vos acaba de ser arrebatado para o céu voltará do mesmo modo que o vistes subir para o céu. (At 1,11) "

SUAS PALAVRAS DE SABEDORIA - Janeiro a Abril

 
PENSAMENTOS DO PADRE PIO DE PIETRELCINA
Janeiro a Abril
Palavras de incrível sabedoria com uma frase para cada dia
Será maravilhoso poder cumprir a meta diária!
 
Carlos de Portugal
 
Janeiro

1. Por graça de Deus, estamos no início de um novo ano. Ano este, – cujo final só Deus sabe se o veremos – deve ser consagrado de todo a reparar por o passado, a propor para o futuro; e procurar que a par disto se tenham bons propósitos e as obras santas.
2. Digamos com plena consciência que dizemos a verdade a nós mesmos: alma minha, começa hoje a fazer o bem, que até agora não fizeste nada. Caminhemos sempre na presença de Deus. Deus está a ver-me, digamo-nos com frequência, e, ao verme, também me julga. Atuemos de modo que não veja em nós mais do que bem.

3. Não deixes para amanhã o que podes fazer hoje. Não deixemos para amanhã o que podemos fazer hoje. Do ‘bem de depois’ estão cheios os sepulcros… e além disso, quem nos garante que vivemos amanhã? Ouçamos a voz da nossa consciência, a voz do profeta rei: “Se escutais hoje a voz do Senhor, não fecheis os vossos ouvidos”. Levantemo-nos e atesouremos, porque só o instante que passa está em nossas mãos. Não queiramos alargar o tempo entre um instante e outro, que isso não está em nossas mãos.

4. Oh! Quão precioso é o tempo! Felizes os que o sabem aproveitar, porque todos, no dia do juízo, teremos que dar conta rigorosíssima dele ao Juiz Supremo. Oh, se todos chegassem a compreender o valor do tempo! Certamente se esforçariam por o usar de forma digna de elogio.

5. “Comecemos hoje, irmãos a fazer o bem, que até agora não fizemos nada”. Estas palavras que o seráfico Padre São Francisco, em sua humildade, se aplicava a si mesmo, façamo-las nossas no começo de este novo ano. Na verdade, nada temos feito até agora; ou, ao menos, muito pouco; os anos têm vindo a suceder, começando e terminando, sem que nos perguntássemos como os temos empregado; se não havia nada que reparar, nada que acrescentar, nada que tirar em nosso comportamento. Temos vivido como tontos, como se um dia o Juiz eterno não nos houvesse de chamar e de pedir-nos contas da nossa conduta, de como temos empregado nosso tempo.
Entretanto, deveremos dar conta rigorosa de cada minuto, de cada atuação da graça, de cada santa inspiração, de cada ocasião que se nos apresentava para fazer o bem. A mais pequena transgressão da santa lei de Deus será tida em conta!

6. O amor não admite demoras e os Magos, para alcançar sua meta, não poupam esforços para dar a conhecer e a amar Aquele que com o influxo de sua graça conquistou seus corações; e os feriu com aquele amor que procura alargar-se, porque não cabe nas reduzidas dimensões do coração e quer comunicar o que o enche.

7. É necessário cultivar com solidez estas duas virtudes: o amor ao próximo e a santa humildade com Deus.

8. Deus vos deixa nessas trevas para sua glória; aqui está a grande oportunidade de vosso progresso espiritual. Deus quer que vossas misérias sejam o trono de sua misericórdia e a vossa incapacidade a sede de sua onipotência.

9. Em uma ocasião mostrei ao Padre um lindíssimo ramo de majoleto em flor, e ao mostrar ao Padre aquelas flores branquíssimas tão belas, exclamei “Que belas! … “. “Sim disse o Padre, mas mais que as flores são belos os frutos”. E me fez compreender que muito mais que os santos desejos, são belas as obras.

10. Que no a amedrontem as frequentes insidias desta besta infernal. Jesus, que está sempre com você e que lutará a seu lado e por você, não permitirá jamais que chegue a ver-se enganada e vencida.

11. Não te detenhas na busca da verdade e na conquista do sumo Bem. Se dócil ao impulsos da graça, imitando suas inspirações e suas chamadas. Não te envergonhes de Cristo e de sua doutrina.

12. Quando a alma sofre e teme ofender a Deus, não o ofende e está muito longe de o ofender.

13. O ser tentado é sinal de que a alma é muito grata ao Senhor.

14. Não se abandone jamais a si mesma. Ponha toda a confiança somente em Deus.

15. Sinto cada vez mais a imperiosa necessidade de entregar-me com mais confiança à misericórdia divina e de por somente em Deus toda a minha esperança.

16. É terrível a justiça de Deus. Mas não esqueçamos que também a sua misericórdia é infinita.

17. Procuremos servir ao Senhor com todo o coração e com toda a vontade. Nos dará sempre muito mais do que aquilo que merecemos.

18. Louva somente a Deus e não aos homens, honra ao Criador e não à criatura. Sê capaz de suportar as amarguras durante toda a tua vida para poderes participar dos sofrimentos de Cristo.

19. Somente um general sabe quando devem atuar os seus soldados. Tem paciência; também a ti te chegará a tua vez.

20. Afasta-te do mundo. Escuta-me: um se afoga no mar; o outro se afoga num copo de água. Que diferença há entre um e outro? Não estão mortos os dois?

21. Pensa sempre que Deus tudo vê!

22. Na vida espiritual quando mais se corre menos se sente o cansaço; maior será a paz, prelúdio do gozo eterno, a que se apodera de nós e seremos felizes e fortes na medida que, mantendo-nos neste esforço e mortificando-nos a nós mesmos, façamos que Cristo viva em nós.

23. Não nos desanimemos nunca ante os desígnios da divina providência, que, unindo os gozos aos sofrimentos e fazendo-nos passar na vida, a cada um e às nações, das alegrias às lágrimas, nos conduz à obtenção do nosso fim último. Vejamos detrás da mão do homem que se manifesta desse modo, a mão de Deus que se oculta.

24. Se queremos recolher a colheita, é necessário não somente semear a semente senão também deitá-la em boa terra; e quando esta semente chegue a fazer-se planta, temos de estar muito atentos para vigiar que o joio não sufoque as tenras plantinhas.

25. Em todos os acontecimentos humanos, aprendei a reconhecer e a adorar a vontade de Deus.

26. Na vida espiritual, há que ir sempre em frente e não retroceder jamais; de outro modo nos sucede como ao barco, que, em vez de avançar, se detém, e o vento o arrasa para trás.

27. Recorda que a Mãe, ao princípio, ensina a andar o seu filho segurando-o, mas estes cedo devem caminhar eles sozinhos; da mesma forma, tu deves raciocinar com a tua cabeça.

28. “Enquanto tenhas temor não pecarás”. “Pode ser assim Padre, mas sofro muito”. “Sofre muito, é certo, mas há que confiar; existe o temor de Deus e o temor de Judas. O medo excessivo impede-nos de trabalhar com amor, e a excessiva confiança não nos deixa ser conscientes e temer o perigo que devemos superar. O primeiro deve dar a mão à segunda, e deverão caminhar os dois juntos como duas irmãs. Há que atuar sempre assim, já que, se nos damos conta de ter medo ou de temer demasiado, então devemos recorrer à confiança; e, se confiamos em excesso, devemos, em troca, ter um pouco de temor, porque o amor tende até ao objeto amado, mas o avançar é cego, não vê, mas o santo temor oferece-lhe a luz.

29. Não se alcança a salvação se não é atravessando o tempestuoso mar que nos ameaça sempre em destruir-nos. O Calvário é o monte dos santos, mas daí se passa a outro monte, que se chama Tarbor.

30. Eu não desejo outra coisa que morrer ou amar a Deus: ou a morte ou o amor; pois a vida sem este amor é pior que a morte; para mim essa situação seria mais insustentável que a atual.

31. Não devo, pois, minha queridíssima filha, deixar passar o primeiro mês do ano sem levar à tua alma a saudação de minha alma e garantir-te cada dia mais o afecto que meu coração sente pelo teu, ao qual não deixo nunca de desejar toda a classe de bênçãos e de felicidade espiritual. Mas, minha boa filha, encomendo vivamente a teus cuidados esse teu pobre coração: intenta fazê-lo cada dia mais grato a nosso dulcíssimo Salvador, e atuar de modo que este novo ano seja mais rico em boas obras que o ano passado, já que, na medida que passam os anos e se acerca a eternidade, há que redobrar o esforço e elevar nosso espírito a Deus, servindo-o com maior diligência em tudo aquilo que nos obriga nossa vocação e profissão cristã.
 
Fevereiro
1. A oração é o desabafo de nosso coração na pessoa de Deus. Quando se faz bem, comove o coração de Deus e o convida, sempre mais, a acolher nossas súplicas. Quando nos dispomos a orar a Deus, procuremos desabafar todo nosso espírito. Nossas súplicas o cativam de tal modo que não deixa nunca de vir em nossa ajuda.

2. Quero ser somente um pobre frade que ora… Deus vê manchas até nos anjos! Quanto mais em mim!

3. Ora e espera; não te inquietes. A inquietude não conduz a nada. Deus é misericordioso e escutará tua oração.

4. A oração é a melhor arma que temos; é uma chave que abre o coração de Deus. Deveis falar a Jesus também com o coração para além de o fazer com os lábios; ou melhor, em algumas ocasiões deveis fazê-lo unicamente com o coração.

5. Com o estudo dos livros se busca a Deus; com a meditação O encontramos.

6. Sede assíduos na oração e na meditação. Já me haveis dito que haveis começado a fazê-lo. Oh Deus! Que grande consolo para um padre que os ama igual que sua própria alma! Continuai progredindo sempre no santo exercício do amor a Deus. Reflecti cada dia um pouco: se é de noite, à luz ténue da lâmpada e entre a esterilidade e impotência do espírito; e se for de dia, no gozo e na luz deslumbrante da alma.

7. Se puderes falar ao Senhor na oração, fala-lhe, oferece-lhe teu louvor, se não podes falar por ser inculta, não te desgostes; detém-te na habitação como os criados na corte, e faz-lhe reverência. Ele te verá, alegrar-se-á com tua presença, favorecerá teu silêncio e em um outro momento encontrarás consolo quando Ele te tome a mão.

8. Este modo de estar na presença de Deus, unicamente para expressar-lhe com nossa vontade que nos reconhecemos servos seus, é muito santo, excelente, puro e de uma grandíssima perfeição.

9. Quando te encontres perto de Deus na oração, fala-lhe se podes, e se não puderes, pára, faz-te ver e não busques outras preocupações.

10. As orações, que tu me pedes, não te faltam nunca, porque não me posso esquecer de ti que me custas tantos sacrifícios. Dei-te à luz na vida de Deus com a dor mais intensa do coração. Estou certo de que em tuas preces não te esquecerás de quem leva a cruz por todos.
11. O melhor consolo é o quem vem da oração.

12. Salvar as almas orando sempre.

13. A oração deve ser insistente, já que a insistência põe de manifesto a fé.
14. As orações dos santos no céu e as dos justos na terra são perfume que não se perderá jamais.

15. Eu não me cansarei de orar a Jesus. É verdade que minhas orações são mais dignas de castigo que de prêmio, porque desgostei demasiado a Jesus com meus incontáveis pecados; mas, no fim, Jesus se apiedará de mim.

16. Todas as orações são boas, sempre que acompanhadas com pela reta intenção e pela boa vontade.

17. Refleti e tende sempre diante dos olhos da mente a grande humildade da Mãe de Deus e Mãe nossa. Na medida que cresciam nela os dons do céu, aprofundava cada vez mais na humildade.

18. Como as abelhas que sem vacilar atravessam uma e outra vez as amplas extensões dos campos, para alcançar o terreno preferido; e depois, cansadas e satisfeitas e carregadas de pólen, retornam à colmeia para ali levar a cabo uma ação fecunda e silenciosa a sábia transformação do néctar das flores em néctar de vida: assim vós, depois de a ter acolhido, guardai bem dentro de vosso coração a palavra de Deus. Volvei à colmeia, é dizer, meditai-a com atenção, detende-vos em cada um dos elementos, buscai seu sentido profundo. Ela se manifestará então com todo seu esplendor luminoso, adquirá o poder de destruir vossas inclinações naturais ao material, terá o poder de as transformar em puras elevações e sublimes do espírito, e de unir vosso coração cada vez mais estreitamente ao Coração divino de vosso Senhor.

19. A alma cristã não deixa passar um só dia sem meditar a paixão de Jesus Cristo.

20. Para que se dê a imitação, é necessária a meditação diária e a frequente reflexão sobre a vida de Jesus; da meditação e da reflexão brota a estima de suas obras; e da estima, o desejo e a consolação da imitação.

21. Tem paciência ao preservar em este santo exercício da meditação e conforma-te com começar dando pequenos passos, até que tenhas duas pernas para correr, e melhor, asas para voar; contenta-te em obedecer, que nunca é algo sem importância para uma alma que escolheu a Deus para sua herdade; e resigna-te a ser neste momento uma pequena abelha da colmeia que muito prontamente se converterá em uma abelha grande, capaz de fabricar o mel. Humilha-te com muito amor perante Deus e os homens, pois Deus fala aos que se mantêm diante dele humildemente.

22. Não posso, pois, admitir e, como consequência, dispensar-te da meditação apenas porque te parece que não tiras nenhum proveito. O dom sagrado da oração, minha querida filha, o tem o Salvador em sua mão direita; e à medida que te vais esvaziando de ti mesma, é dizer, do amor ao corpo e da tua vontade própria, e te vais enraizando na santa humildade, o Senhor o irá comunicando em teu coração.

23. A verdadeira causa pela qual nem sempre consegues fazer bem tuas meditações eu a descubro, e não me equivoco, está nisto: Te pões a meditar com certo nervosismo e com uma grande ansiedade por encontrar algo que possa fazer que teu espírito permaneça contente e consolado; e isto é suficiente para que não encontres nunca o que buscas e não fixes tua mente na verdade que meditas. Filha minha, hás de saber que quando alguém busca com pressa e avidez um objeto perdido, o tocará com as mãos, irá vê-lo cem vezes com seus olhos, e nunca o sentirá. Desta vã e inútil ansiedade não te poderá vir senão um grande cansaço de espírito e a incapacidade da mente em deter-se no objeto que tem presente; e a consequência desta situação é certa frieza e sem sentido da alma, sobretudo na parte afetiva. Para esta situação não conheço outro remédio fora de este: sair de esta ansiedade, porque ela é um dos maiores enganos com os quais a virtude autêntica e a sólida devoção podem jamais tropeçar; aparenta afervorar-se no bem obrar, mas não faz outra coisa que entibiar-se, e nos faz correr para que tropeçamos.

24. Aquele que não medita pode fazer como aquele que não se vê nunca ao espelho, que não se preocupa de sair arranjado. Pode estar sujo sem o saber. Aquele que medita e pensa em Deus, que é o espelho de sua alma, busca conhecer seus defeitos, tenta corrigi-los, se reprime em seus impulsos, e tem uma consciência tranquila.

25. Não sei nem compadecer-te nem perdoar-te que com tanta facilidade deixes a comunhão e também a santa meditação. Recorda, minha filha, que não se chega à salvação senão por meio da oração; e que não se vence a batalha se for pela oração. Cabe a ti, pois, a escolha.

26. Quanto ao que me dizes que sentes quando fazes a meditação, hás de saber que é um engano do diabo. Está, pois, atenta e vigilante. Não deixes jamais a meditação por este motivo; de outro modo, convence-te de que muito prontamente estarás vencida completamente.

27. Tu, enquanto isso, não te aflijas até ao extremo de perder a paz interior. Ora com perseverança, com confiança e com a mente tranquila e serena.

28. Rogai pelos maus, rogai pelos fervorosos, rogai pelo Sumo Pontífice e por todas as necessidades espirituais e temporais da santa Igreja, nossa terníssima mãe; e elevai uma súplica especial por todos os que trabalham pela salvação das almas e pela glória do Pai celestial.

29. Depois do amor a nosso Senhor, recomendo-te, filha, o amor à Igreja, sua Esposa, a esta querida e doce pomba, que é a única que pode pôr os ovos e procriar os pombinhos e pombinhas do Esposo. Dá graças contínuas a Deus por seres filha da Igreja, a exemplo de tantas almas que nos precederam no feliz trânsito. Tem grande compaixão de todos os pastores, predicadores, e guias de almas e contempla como estão espalhados por toda a face da terra, porque não há no mundo província alguma donde não haja muitos. Roga a Deus por eles para que, salvando-se a si mesmos, procurem frutuosamente a salvação das almas.
 
Março
1. Padre tu amas aquilo que eu temo. – Resposta: Eu não amo o sofrimento pelo sofrimento: peço-o a Deus, desejo-o pelos frutos que me oferece: dá glória a Deus, trás a salvação de meus irmãos neste desterro, livra as almas do fogo do purgatório, e que mais quero eu?
- Padre, o que é o sofrimento? – Resposta: Expiação.
- E para você, o que é? – Resposta: Meu alimento diário! Minha delícia!

2. Não nos convencemos de que nossa alma necessita o sofrimento; de que a cruz deve ser o nosso pão de cada dia.
Da mesma forma que o corpo precisa de se alimentar, assim também a alma necessita dia após dia da cruz, para purificar-se, e separar-se das criaturas.
Não queremos compreender que Deus não quer, não pode salvar-nos nem santificar-nos sem a cruz, e que quanto mais atrai uma alma a si, mais a purifica por meio da cruz.

3. Nesta terra cada um tem a sua cruz, mas devemos atuar de modo que não sejamos o mau ladrão, e sim o bom ladrão.

4. O Senhor não pode dar-me um cireneu (Simão de Cirene). Devo fazer sozinho, a vontade de Deus; e se O agrado; o resto não conta.

5. Na vida Jesus não te pede que leves com Ele sua pesada Cruz, mas uma pequena parte da sua Cruz, parte que se resume nas dores dos homens.

6. Em primeiro lugar quero dizer-te que Jesus tem necessidade de quem chore com Ele pela iniquidade dos homens, e por este motivo leva-me por caminhos de sofrimento, como me o assiná-las em tua carta. Mas seja sempre bendito em Seu amor, que sabe misturar o doce com o amargo e converter em prêmio eterno as penas passageiras desta vida.

7. Não temas por nada. Ao contrário considera-te muito afortunada por haveres sido feita digna, e participar das dores do Homem-Deus. Não é portanto abandono, tudo isto, senão amor e amor muito especial que Deus te vai demonstrando. Não é castigo, senão amor e amor delicadíssimo. Bendiz por tudo isto ao Senhor, e aceita beber o cálice de Getsemani.

8. Compreendo bem, filha minha, que teu Calvário te resulte cada dia mais doloroso. Mas pensa que Jesus levou a cabo a obra de nossa redenção no Calvário e que no Calvário deve cumprir-se a salvação das almas redimidas.

9. Sei que sofres muito, mas não são estas as jóias do esposo?

10. O Senhor às vezes te faz sentir o peso da cruz.
Este peso te parece insuportável, e no entanto tu o levas porque o Senhor, no Seu amor e Sua misericórdia, te estende a mão e te dá a força que necessitas.

11. Certas doçuras interiores são coisa de criança. Não são sinal de perfeição. Não doçuras e sim sofrimento é o que se precisa. As aridezes, o desânimo, a impotência, estes são os sinais de um amor verdadeiro. A dor é agradável. O desterro é belo porque se sofre e assim podemos oferecer algo a Deus. A oferenda de nossa dor, dos nossos sofrimentos, é uma grande coisa que não podemos fazer no Céu.

12. Preferiria mil cruzes e inclusive me seria doce e ligeira toda a cruz, se não tivesse esta prova de sentir-me sempre na dúvida de se agrado ou não ao Senhor em minhas obras. É doloroso viver assim… Me resigno, mas a resignação, meu “fiat”, me parece tão frio, tão vazio…! Que mistério! Confio em Jesus.

13. Ama a Jesus; ama-O muito; mas precisamente por isso, ama cada vez mais o sacrifício.

14. O coração bom é sempre forte; sofre mas oculta suas lágrimas, e se consola sacrificando-se pelo próximo e por Deus.

15. Quem começa a amar deve estar disposto a sofrer.

16. A dor tem sido amada com deleite pelas grandes almas. É o auxiliar da criação depois da desgraça da caída; é a alavanca mais potente para levantá-la; é o segundo braço do amor infinito para nossa regeneração.

17. Não temas as adversidades, porque colocam a alma aos pés da cruz e a cruz a coloca às portas do céu, donde encontrará ao que é o triunfador da morte, que a introduzirá nos gozos eternos.

18. Se sofres aceitando com resignação sua vontade, tu não o ofendes senão que o amas. E teu coração ficará muito confortado se pensas que na hora da dor Jesus mesmo sofre em ti e por ti. Ele não te abandonou quando fugiste Dele; porquê te vai abandonar agora que, no martírio que sofre a tua alma, Lhe dás provas de amor?

19. Subamos com generosidade ao Calvário por amor d’Aquele que se imolou por nosso amor; e sejamos pacientes, seguros de que voaremos até ao Tabor.

20. Mantém-te unida a Deus com força e com constância, consagrando-lhe todos os teus afetos, todos teus trabalhos e a ti mesmo toda inteira, esperando com paciência o regresso do maravilhoso sol, quando o Esposo queira visitar-te com a prova das aridezes, das desolações e a noite do espírito.

21. Sim, eu amo a cruz, a cruz sozinha; amo-a porque a vejo sempre detrás de Jesus.

22. Os verdadeiros servos de Deus estimaram sempre a adversidade, como mais em conformidade ao caminho que percorreu nosso Senhor, que levou a cabo a obra de nossa salvação pela cruz e os desprezos.
23. O destino das almas escolhidas é o sofrimento. O sofrimento suportado cristãmente é a condição que Deus, autor de todas as graças e de todos os dons que conduzem à salvação, estabeleceu para conceder-nos a glória.

24. Ama sempre o sofrimento, que, para além de ser a obra da sabedoria divina, nos revela com maior claridade ainda a obra de Seu amor.

25. Deixai que a natureza se queixe ante o sofrimento, porque, se excluirmos o pecado, não há nada mais natural. Vossa vontade, com a ajuda divina, será sempre superior e, se não abandonais a oração, o amor divino estará sempre em vosso espírito.

26. A vida é um Calvário; mas convém subi-lo alegremente. As cruzes são os colares do Esposo e eu estou ciumento deles. Meus sofrimentos são agradáveis. Sofro somente quando não sofro.

27. O Deus dos Cristãos é o Deus das transformações. Deitais no seu colo a dor e sacais a paz; deitais desesperação e vereis surgir a esperança.

28. Os anjos somente nos têm inveja por uma coisa: eles não podem sofrer por Deus. Somente o sofrimento nos permite dizer com toda a segurança: Deus meu, vede como Vos amo.

29. O sofrimento dos males físicos e morais é a oferenda mais digna que podeis fazer Àquele que nos salvou sofrendo.

30. Gozo imensamente ao saber que o Senhor é sempre generoso em suas carícias à tua alma. Sei que sofres, mas o sofrimento não é a prova certa de que Deus te ama? Sei que sofres, mas não é este sofrimento o distintivo de toda alma que elegeu por sua parte e sua herdade a Deus, e a um Deus crucificado? Sei que tua alma está sempre envolta nas trevas da provação, mas que te baste saber, minha querida filha, que Jesus está contigo e em ti.

31. Aceita toda dor e incompreensão que vêm do Alto. Assim te aperfeiçoarás e te santificarás.
Abril

1.     Não nos diz o Espírito Santo que, quando a alma se acerca a Deus, deve preparar-se para a prova? Ânimo, pois! Coragem!, filha minha. Luta com fortaleza e terás o prémio reservado às almas fortes.

2.     Há que ser fortes para chegar a ser grandes: este é o nosso dever. A vida é uma luta de que não nos podemos retirar; ao invés, é necessário triunfar.

3.     Ai dos que não são honrados! Não só perdem todo o respeito humano mas que, também, não podem ocupar nenhum cargo civil… Por isso, sejamos sempre honestos, retirando de nossa mente todo mal pensamento; e vivamos com o coração orientado sempre até Deus, que nos criou e nos colocou em este mundo para O conhecer, amá-Lo, e servir-Lhe em esta vida e depois gozar d’Ele eternamente na outra.

4.     Sei que o Senhor permite ao demónio estes assaltos porque sua misericórdia os faz agradáveis a seus olhos, e quer que os assemelheis a ele nas angústias do deserto, do horto e da cruz; mas tereis que vos defender afastando-o e depreciando em nome de Deus e da santa obediência suas malignas insinuações.

5.     Repara bem: sempre que a tentação te desagrada, não tens porque temer, pois, porquê te desagrada senão porque não querias senti-la? Estas tentações tão inoportunas nos provêm da malícia do demónio, mas o desagrado e o sofrimento que sentimos por elas provêm da misericórdia de Deus, que, contra a vontade de nosso inimigo, afasta de sua malícia a santa tribulação, e por meio dela purifica o ouro que quer incorporar a seus tesouros. Digo mais: tuas tentações são do demónio e do inferno, mas tuas penas e sofrimentos são de Deus e do Paraíso; as mães são da Babilónia, mas as filhas são de Jerusalém. Despreza as tentações e abraça as tribulações. Não, não, filha minha, deixa que sopre o vento e não penses que o som das ondas seja o ruído das armas.

6.     Não vos esforceis por vencer vossas tentações porque este esforço as fortaleceria; desprezai-as e não vos entretenhais nelas. Imaginai a Jesus Cristo crucificado entre vossos braços e sobre vosso peito e repeti muitas vezes beijando suas costas: Esta é a minha esperança, esta é a fonte viva de minha felicidade! Eu vos agarrarei estreitamente e não vos deixarei até que me coloqueis em um lugar seguro!

7.     Põe fim a estas preocupações sem sentido. Recorda que a culpa não está no sentimento mas sim no consentir a tais sentimentos. Somente a vontade que actua livremente é capaz do bem e do mal. Mas quando a vontade geme baixo a prova do tentador e não quer aquilo que se lhe apresenta, ali não só não há culpa mas também virtude.

8.     Que não te assustem as tentações; são as provas a que Deus submete à alma quando a vê com forças necessárias para manter o combate e para ir tecendo com as suas próprias mãos a coroa da glória. Até agora a tua vida tem sido de menina; agora o Senhor quer tratar-te como adulta. E porque as provas da vida adulta são muito superiores às das que quando ainda se é criança, por isso ao inicio de encontras desorganizada, mas a vida da alma adquirirá a calma e tu recobrarás a quietude. Tem paciência por um pouco mais de tempo, tudo será para teu bem.

9.     As tentações contra a fé e a pureza são mercadoria que oferece o inimigo; mas não há que ter-lhe medo senão desprezar-lhe. Enquanto siga alvoroçando, é sinal de que todavia não se apoderou da vontade. Tu não te desassossegues pelo que estás experimentando da parte de este anjo rebelde; que tua vontade se mantenha sempre contrária a estas instigações, e vive tranquila que aí não há culpa senão complacência de Deus e ganho para a tua alma.

10. A Ele deves recorrer nos assaltos do inimigo; em Ele deves pôr esperança, e Dele deves esperar todo o bem. Não te detenhas voluntariamente naquilo que o inimigo te apresente. Recorda que vence o que foge; e tu ante os primeiros movimentos de aversão sobre aquelas pessoas, deves afastar o pensamento e recorrer a Deus. Dobra teu joelho ante Ele e com grandíssima humildade repete esta breve súplica: “Tem misericórdia de mim, que sou uma pobre enferma”. Depois levanta-te e com santa indiferença continua em teus negócios.

11. Tem por certo que quanto mais crescem os assaltos do inimigo tanto mais perto da alma está Deus. Pensa e medita bem de esta verdade certa e reconfortante.

12. Anima-te e não temas as escuras iras de Lúcifer. Mete isto na cabeça para sempre: é um bom sinal que o inimigo se alvoroce e ruja em torno da tua vontade, porque isto demonstra que ele não está dentro. Ânimo!, minha queridíssima filha. Pronuncio esta palavra com grande sentimento e, em Jesus, te repito: ânimo! não há que temer enquanto podemos dizer com decisão, nem que seja sem o sentir: Viva Jesus!

13. Tem por certo que quanto mais grata é uma alma a Deus mais tem que ser provada. Por isso, coragem! e sempre em frente!

14. Compreendo que as tentações mais que purificar o espírito parecem que o mancham; mas escutemos qual é a linguagem dos santos; e a este propósito, vos baste saber o que, entre outros, disse São Francisco de Sales: que as tentações são como o sabão, que, estendido sobre o pano, parece que o suja quando em realidade o limpa.

15. Volto a incutir-vos uma vez mais a confiança; nada pode temer a alma que confia em seus Senhor e que põe n’Ele sua esperança. O inimigo de nossa salvação está sempre rondando-nos para arrancar-nos de nosso coração a âncora que deve conduzir-nos à salvação, quero afirmar a confiança em Deus nosso Pai; agarremos com força esta âncora e não permitamos nunca que nos abandone nem um só instante, de outro modo todo estaria perdido.

16. Oh, que felicidade nas lutas do espírito! Basta querer saber combater sempre, para sair vencedor com toda a segurança.

17. Está atenta para não desanimar-te nunca ao verte rodeada de debilidades espirituais. Se Deus te deixa cair em alguma debilidade, não é para abandonar-te senão só para consolidar-te na humildade e fazer-te mais atenta no futuro.
18. Marchai com simplicidade pelo caminho do Senhor e não atormenteis vosso espírito. Tereis que odiar vossos defeitos, mas com um ódio tranquilo e não com o que inquieta e tira a paz.

19. A confissão, que é a purificação da alma, há que fazê-la no mais tardar cada oito dias; eu não me posso resignar a ter as almas mais de oito dias afastadas da confissão.

20. O demónio tem uma única porta para entrar em nosso espírito: a vontade; não existem portas secretas. Nada é pecado senão tiver sido cometido pela vontade. Quando não entra em jogo a vontade, não se dá o pecado, senão a debilidade humana.

21. O demónio é como um cão raivoso atado à corrente; não pode ferir a ninguém mais para além do que permite a corrente. Mantém-te pois, longe. Se te acercas demasiado, te apanhará.

22. Não abandoneis vossa alma à tentação, diz o Espírito Santo, pois a alegria do coração é a vida da alma e um tesouro inesgotável de santidade; enquanto a tristeza é a morte lenta da alma e não é útil para nada.

23. Nosso inimigo, provocador de nossos males, se faz forte com os débeis; mas com aquele que lhe faz frente com valentia resulta um cobarde.

24. Se conseguimos vencer a tentação, esta produz o efeito que a lixívia na roupa suja.

25. Sofreria mil vezes a morte ante que ofender ao Senhor deliberadamente.

26. Não se deve voltar nem com o pensamento nem na confissão aos pecados já acusados em confissões anteriores. Por nossa contrição Jesus os há perdoado no tribunal da penitência. Ali Ele se encontrou ante nós como um credor de frente a um devedor insolvente. Com um gesto de infinita generosidade rasgou, destruiu, as letras de troca assinadas por nós ao pecar, e que não havíamos podido pagar sem a ajuda de sua clemência divina. Voltar sobre aquelas culpas, querer exumá-las de novo só com o fim de obter uma vez mais o perdão, só pela dúvida de que não hajam sido verdadeiramente e generosamente perdoadas, não havia que considerar como um ato de desconfiança ante a bondade de a que havia dado prova ao destruir Ele mesmo todo título da dívida que contraímos ao pecar? Volta, se isto pode ser motivo para a tua alma, volta teu pensamento às ofensas infligidas à justiça, à sabedoria, à infinita misericórdia de Deus, mas só para derramar sobre elas as lágrimas redentoras do arrependimento e do amor.

27. No alvoroço das paixões e das situações difíceis nos sustenha em pé a grata esperança de sua inesgotável misericórdia. Corramos confiadamente ao tribunal da penitencia donde Ele com ânsias de Pai nos espera em todo momento; e ainda sabendo que somos insolventes, não duvidemos do perdão que se pronuncia solenemente sobre nossas culpas. Coloquemos sobre elas, como colocou o Senhor, uma pedra sepulcral!

28. As trevas que às vezes obscurecem o céu de vossas almas são luz: por elas acreditais na obscuridade e tendes a impressão de vos encontrardes no meio de uma sarça-ardente. Com efeito, quando a sarça arde, o ar se enche de nuvens e o espírito desorientado teme não ver nem compreender já nada. Mas então Deus fala e se faz presente à alma: que ouve, entende, ama e treme. Não espereis, pois, ao Tarbor para ver a Deus, quando já o contemplastes no Sinai.

29. Caminha com alegria e com um coração o mais sincero e aberto que possas; e quando não possas manter esta santa alegria, ao menos não percas nunca o valor e a confiança em Deus.

30. Todas as provas às quais o Senhor vos submete e vos submeterá são sinais de seu divino amor e enfeites para a alma. Passará, minhas queridas filhas, o inverno e chegará a eterna primavera, tanto mais rica de belezas quanto mais duras foram as tempestades.
 
...continua




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